Fazenda quer regulação dos novatos no mercado, mas Susep resiste à ideia

 

O Ministério da Fazenda estuda criar uma regulamentação específica para as "cooperativas" ou associações de seguros. Mesmo com um novo grupo de trabalho para discutir essas normas, porém, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) se diz "radicalmente contra" à proposta.

Apesar de desvinculadas a qualquer regra de mercado, as "cooperativas" ou associações de seguros são conhecidas pela venda de apólices de proteção (veicular, patrimonial, etc) - coberturas formadas com dinheiro do próprios associados e que ganharam forte apelo nos últimos anos com preços menores em relação ao das seguradoras.

Conhecidas pelas autoridades do segmento de seguros como "entidades marginais", no entanto, sua alta propagação entre os consumidores e a falta de fiscalização que viabilizem a atuação dessas companhias de forma justa ao consumidor, traz opiniões adversas entre os próprios reguladores.

De um lado, o Ministério da Fazenda enxerga as cooperativas como uma "expansão" do mercado segurador e defendem a criação de uma regulação específica como parte do processo de "aumento de coberturas" viabilizadas pelo setor.

"Estamos falando de entidades que atuam em nichos onde o setor de seguros não vai ou para os quais não tem condições de criar esse tipo de apólice que as cooperativas fazem.

Nós queremos aumentar as coberturas e o intuito não é tirá-las do mercado, mas trazer uma responsabilização e fiscalização em proteção ao próprio consumidor", avalia a secretária-adjunta de políticas microeconômicas do Ministério da Fazenda, Priscila Grecov.

Da outra ponta, porém, a Susep pondera ser um "mercado ilegal" que tem atrapalhado e "iludido" consumidores com a venda de "falsos seguros" e que, mesmo com a criação de um novo grupo de trabalho em outubro para fazer uma análise da viabilidade de implementação dessas normas, "não há meios de fazer isso fluir".

"Nós somos radicalmente contra", disse o superintendente substituto do órgão regulador, Paulo dos Santos.

"O produto que elas vendem só é mais barato porque não tem o famoso custo regulatório, vindo com a fiscalização e a garantia do recebimento de indenização em caso de sinistro. É uma atividade ilegal", acrescenta o executivo.

Exigências para todos

Ao mesmo tempo, as discussões já existentes sobre o assunto abrem espaço para a dedução de que, caso haja a criação de uma regulamentação para as cooperativas, as exigências não serão do mesmo nível daquelas feitas às empresas seguradoras.

De acordo com Grecov, a ideia é usar o modelo feito pelo Banco Central às cooperativas de crédito como exemplo para o mercado segurador. "É uma necessidade, mas a regulação precisará saber distinguir. O problema é o vazio da regulação, mas as exigências não devem ser no mesmo patamar", analisa a executiva.

Para Santos, no entanto, devem haver dificuldades para a implementação dessas novas regras de forma a estar de acordo com o que o setor espera. "Elas oferecem um risco ao consumidor final.

Se por acaso algum dia isso for regulamentado por uma vertente que independe da Susep, ainda assim teremos que estabelecer as regras justas para que ela funcione de acordo com o mercado", conclui o superintendente.

Em outro painel, o diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Leandro Fonseca, falou sobre o potencial dos produtos de saúde como forma de financiar os serviços de saúde.

"A questão do financiamento da saúde, com o envelhecimento da população, precisa entrar na agenda, como a previdência entrou", disse, citando o modelo de capitalização para saúde que já atende 22 milhões de pessoas no mercado norte-americano.

O presidente da CNSeg, Marcio Coriolano, destacou que a flexibilização regulatória é bem-vinda, precisa ser feita com bastante responsabilidade para ampliar o acesso aos consumidores , que hoje estão não só mais empoderados, conscientes de seus direitos, mas também machucados pela crise, afetados pelo desemprego, descrentes com autoridades e com mercados.

Corte de custos

Outro ponto abordado pelos especialistas é que não apenas para a regulamentação das cooperativas, mas de todos os demais produtos e até mesmo para o exercício de fiscalização da Susep e do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), é necessária uma "renovação" no setor para facilitar a participação de outros agentes mo mercado de apólices.

"Ao mesmo tempo em que existem setores atuando sem regulação, há uma regulação excessiva aos agentes do mercado segurador. Fomentar a inovação e reduzir custos desnecessários de intermediação com o uso das fintechs, por exemplo, é necessário no contexto atual", pondera Grecov, do Ministério da Fazenda.

Nesse sentido, com o intuito de reduzir os custos com a abertura do mercado e o acirramento da competição, a Susep já tem um grupo com a participação de startups para estudo do assunto.

"O movimento é para facilitar o acesso do consumidor e não tirar o corretor. Mas nossos profissionais precisam entender que não dá mais para ser apenas um vendedor, porque isso será feito pela internet. É entender e implementar isso ou sermos atropelados e ficarmos para trás", disse Santos. /A repórter viajou ao Rio de Janeiro à convite da Conseguro. (Fonte: DCI )